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Francisco Lázaro

Francisco LázaroA Emborcação no Treino

 Gustavo Pires

Na “Revue Olympique” nº 80 de agosto de 1912 pode ler-se que, pela primeira vez, desde que os Jogos Olímpicos foram restaurados, o Movimento Olímpico foi atingido pelo luto quando um corredor português sofreu um golpe de insolação que lhe foi fatal. Francisco Lázaro morreu no dia seguinte num hostpital de Estocolmo.

Ao cabo de dezasseis anos, desde que os Jogos Olímpicos da era moderna tinham, pela primeira vez, acontecido em Atenas no ano de 1896, morreu um atleta em plena competição. Diz o articulista que apesar da prova ter sido realizada num período quente do dia, o que é facto é que o colapso do atleta não poder ser atribuído ao ligeiro calor sueco (légère chaleur suédoise) uma vez que o calor em Portugal, a que o atleta estava habituado, era muito mais intenso. E o articulista avança para a suposição de que seria muito mais provável que o colapso de Francisco Lázaro (1888-1912) tivesse sido provocado por uma qualquer causa intestinal.

Francisco Lázaro era carpinteiro de uma fábrica de carroçarias de automóveis na Travessa dos Fiéis de Deus no Bairro Alto em Lisboa, foi o porta-estandarte da equipa portuguesa que participou nos Jogos da V Olimpíada da era moderna.

A busca da superação não encontra limites na condição humana. Pierre de Coubertin dizia, e bem, que “não existe desporto sem excessos”. E foram os excessos próprios daqueles que buscam a "areté" quer dizer a excelência dos gregos antigos que, muito provavelmente, conduziram o atleta, tal como qualquer herói da grécia antiga, à morte permatura.

Um médico foi-lhe prestar assistência. Aplicou-lhe gelo em plena estrada. Levaram-no para o hospital onde lhe diagnosticaram uma meningite.

No dia 14 de Julho de 1912, aos 29 km dos 42,185 da Maratona, na colina de Öfver-Järva, Francisco Lázaro, cambaleou, caiu por várias vezes e várias vezes se levantou para continuar a prova, até cair para não mais se levantar. (Nolasco, Pedro, 1985).

No Estádio Olímpico Estocolmo a bandeira portuguesa ficou a meia haste.

Francisco Lázaro é, porventura, a maior lenda do desporto português.

Estocolmo (1912), era a primeira participação portuguesa nos Jogos Olímpicos e, simultaneamente, o culminar de um processo iniciado por D. Carlos Rei de Portugal que, segundo conta a tradição, a pedido de Pierre de Coubertin, indicou o Dr. António Lancastre médico da Casa Real como Encarregado de Negócios do Comité Olímpico Internacional (COI) em Portugal. O que é facto é que, a nomeação foi aceite por António Lancastre e por ele formalizada por carta de 9 de Junho de 1906, dirigida a Pierre de Coubertin. Esta é, na realidade, a data da institucionalização do Movimento Olímpico em Portugal e aquela que, em respeito pela histórica, devia ser comemorada pelo Comité Olímpico de Portugal (COP).

A partida para a Maratona foi dada às onze e meia da manhã debaixo de um calor sufocante. Trinta e dois graus à sombra.

Até desfalecer Lázaro correu sempre no grupo da frente. Reza a história que antes da partida Lázaro afirmou solenemente “Ou ganho ou morro”. E assim  cumpriu o seu destino.

Anos mais tarde, Armando Cortesão colega de Lázaro na fatídica participação olímpica de 1912, explicou o drama (Correia, Romeu, 1988):

"O Lázaro morreu por dois motivos: primeiro, porque se untou com sebo. Fui eu e o Fernando Correia, quando ele não aparecia à partida na maratona, que o procurámos no balneário e o encontrámos a besuntar-se com sebo. Não faço a menor ideia como Lázaro conseguiu arranjá-lo. Eu e o Fernando Correia ainda tentámos que ele tomasse banho, mas não havia tempo. E ele lá foi correr a maratona todo besuntado com sebo, com os poros da pele tapados, o que impedia a transpiração cutânea nessa parte do corpo... E outra coisa: só ele e um japonês é que foram de cabeça descoberta àquele sol…”

Francisco Lázaro com o seu procedimento entrou em desequilíbrio hidro-electrolítico irreversível e, em consequência, em colapso.

A este respeito Fernando Cortezão, um dos elementos da equipa portuguesa contou a Romeu Correia:

"Quando me lembro da nossa ida a Estocolmo, há uma coisa que me irrita sempre. Ainda há pessoas que me falam nisso hoje: o caso do Lázaro! Que o Lazaro fora envenenado ... que lhe fizeram essa patifaria para ele perder a corrida ... Urn disparate! O Lázaro morreu por dois motivos: primeiro, porque se untou com sebo. Fui eu e o Fernando Correia, quando ele nao aparecia à partida da Maratona, que o procurámos no balneario, e lá o encontramos a besuntar-se com sebo ... Nao faço a menor ideia como o Lázaro conseguiu arranjá-lo (ele que mal falava portugues), mas conseguiu sebo e estava a untar-se ... Eu e o Fernando Correia ficamos apavorados, ainda tentamos que ele tomasse urn banho, mas já nao havia tempo. E ele lá foi correr a Maratona todo besuntado de sebo, com os poros da pele tapados, o que impedia a transpiração cutanea nessa parte do corpo. E outra coisa: Só ele e urn japonês é que foram de cabeça descoberta, àquele Sol."

Acreditamos que assim tenha sido, mas não só.

Ao tempo o problema da “emborcação” tudo indica era muito comum entre os atletas não só do pedestrianismo como do ciclismo. Por isso aquela não tinha sido certamente a primeira vez que Lázaro se untava com aquele tipo de emborcação. Este tipo de substâncias fazia parte da cultura do tempo pelo que não pode ser vista aos olhos dos nossos dias.

No “Tiro e sport” de 15 de Setembro de 1910, num artigo encomendado pelo próprio director do jornal, intitulado "A Emborcação no Treino" A. Malheiro escrevia:

“Devemos partir do principio de que é com a Emborcação que vamos assegurar a elasticidade e perfeita maleabilidade dos musculos de que se exigem os esforços mais effectivos, tornando-os insensiveis á dôr e á fadiga, e evitar quanto possível as caimbras que têm sido e serão sempre o inimygo irreductivel de todos aquelles que se dedicam ao sport.”

E a receita de A. Malheiro até era divulgada na mesma edição, para quem a quisesse preparar:

  • Claras d'ovos – 4;
  • Gemma d'ovo – 1;
  • Agua distillada – 450 grs;
  • Essencia de terebinthina rectificada – 700 grs;
  • Acido acético – 700 grs.

Contudo, o verdadeiro problema de Lázaro não se deve ter ficado pela essência de terebintina e o ácido acético. Ao tempo, a emborcação ia bem mais longe. De facto, a comunicação social informou que Lázaro abusava da estricnina. E a este respeito, A. Malheiro no "Tiro e Sport" desiludia os ingénuos:

“Não se julgue que é só com as applicações da Emborcação que se obtem a energia precisa, para se operarem esforços violentos. É um engano.”

E continuava:

“… todos aqueles que se dedicam ao sport e que precisam de dispender na sua pratica uma grande somma de forças, devem tonificar o systema nervoso e para isso nada mais proprio do que o uso da Kola (sterculia acuminata). Zimmermann. Jacquelin e outros, e entre nós José Bento Pessoa, reconheceram nos seus tempos aureos, os grandes beneficios do uso da Kola e a ella deveram uma grande parte das victorias, que os tornaram celebres no mundo sportivo.”

Pedro Nolasco no livro da sua autoria intitulado "A Morte de Francisco Lázaro", conta:

“Quando frequentei, em Estocolmo, o ramo de Ginástica Médica e de Recuperação do Real Instituto Central de Ginástica, tive aulas de patologia no Hospital Real de Serafina com o Professor Doutor Folke Henchen. Este, ao saber que era português, perguntou-me se ouvira falar num praticante português da Maratona que falecera nos Jogos Olímpicos de Estocolmo em 1912, ao que lhe respondi que sim e que se chamava Francisco Lázaro. Esclareceu-me então o Professor Doutor F. Henchen que estando de serviço na altura, lhe competira efectuar a autópsia do atleta, tendo encontrado o fígado de Francisco Lázaro completamente mirrado, do tamanho de um punho fechado e rijo, a tal ponto que só se conseguira partir a escopro, como se fosse uma pedra.”

Lázaro foi vítima de uma cultura que aconselhava o “emborcamento” como um complemento do próprio treino. Representava a utilização da técnica ao serviço do desenvolvimento. A este respeito o relato de Fernando Cortezão corrobora o estado de espírito a que nos referimos. Romeu Correia perguntou-lhe:

"Ha anos li, numa entrevista que o Sr. Professor deu a urn jornal, urn episódio sobre a compra de emborcagem numa farmácia sueca ...".

Ao que Fernando Cortezão respondeu:

"Isso foi uma coisa pavorosa!
Como víamos todos os atletas a levar massagens, nós resolvemos comprar emborcagens. E o Joaquim Vital foi a uma farmácia. Ora, ele, mal falava francês, nada de inglês e muito menos ainda o sueco ... O farmacêutico, que era urn pirata qualquer, vendeu-lhe urn frasco com urn líquido transparente, incolor ... Ficámos intrigados quando vimos aquilo. Depois de urn treino, eu deitei-me sobre uma mesa e o Vital começou a dar-me massagens com o tal liquido. Chegaram uns curiosos à nossa volta, muito espantados, e pergunta-me então urn sueco: 'O que é que os senhores estão a fazer?' E fui eu então (que falava inglês) que respondi: 'Quisémos comprar emborcagens e foi isto que nos deram na farmácia.' Ao que o outro retorquiu: 'Ó homem, mas isso é urn remédio para os dentes! 'O farmacêutico impingiu o remédio dos dentes ao Joaquim Vital e era com isso que me estavam a dar massagens.
Isto dá uma ideia das condições em que nos fomos a Estocolmo."

Não se trata de fazer juízos de valor, nem de analisar uma situação ocorrida à cem anos com a lógica e os preconceitos de hoje. Mas o que é facto é que só andava no desporto quem procurava o rendimento e o recorde e aos olhos do tempo como vimos no artigo de A. Malheiro no "Tiro e Sport" a emborcagem fazia parte da cultura desportiva do tempo. Nos Jogos de Londres (1908) o grande herói da Maratona Dorando Pietri que já dentro do estádio por diversas vezes colapsou por estar enchacado em estricnina ao tempo utilizada como doping. (Centre national de la recherche scientifique. Ministère de l'Enseignement supérieur et de la Recherche, 1998). Dorando não foi desclassificado por ter tomado qualquer substância mas, simplesmente, porque foi ajudado a levanar-se pelos juízes da prova.

No nº 391 da revista “Tiro e Sport” vem pela primeira vez desenvolvida uma reportagem relativa aos Jogos Olímpicos de Londres:

“Pela quinta vez athletas de quasi todos os paizes se reuniram no novo Estadio construido em Shepherd's Bush, próximo de Londres, confraternisando os dois mil representantes das diversas nacionalidades no mesmo ideal da perfeição physica, confraternisação que pode mais que as allianças fictícias dictadas pelas chancelarias.”

Portanto, a ideia universal dos Jogos Olímpicos, bem como o reconhecimento do espírito olímpico das suas potencialidades enquanto instrumento para um bom relacionamento entre países começam a surgir na imprensa a partir de 1908.
A corrida da Maratona acolhia um interesse especial da generalidade da população. Pode ler-se no mesmo número do “Tiro e Sport”:

“A corrida de Marathona 42 kilometros foi até agora a a prova que mais enthusiasmo despertou no publico que se compunha de 100.000 os espectadores.” “Que grandioso espectaculo o d'aquelle famoso dia da corrida de Marathona, em que um concorrente que acaba de fazer 42 kilometros se sente desfallecido ao entrar no Estadio, attribuido o seu mal estar á enorme commoção sentida por se vêr o primeiro classificado, honrando o seu paiz, a Italia, aclamado por 100.000 espectadores. “A Rainha de Inglaterra, distribuindo ella mesma os prémios aos vencedores, deu mais uma prova da grande importância attribuida no seu paiz á educação physica, e a simpática soberana offerecendo extraordinariamente uma Taça ao italiano Durando que por um lamentavel facto foi desclassificado na corrida de Marathona que moralmente venceu, mostrou a sensibilidade do seu coração, alheio a preconceitos de nacionalidade, coração que batia unisono com o de todos os inglezes espectadores, que d'uma maneira nunca vista aclamaram o heroico athleta.”

Quatro anos depois, em 1912, as coisas não eram nem podiam ser muito diferentes. O mundo movia-se a uma velocidade que nada tinha a ver com a velocidade com que hoje se move. Por outro lado, os problemas não tinham a complexidade com que hoje são vistos. Repare-se que o articulista do “Tiro e Sport” se limita a dizer que Dorando foi desclassificado por um "lamentável facto".

Assim na V edição dos Jogos Olímpicos morreu o primeiro atleta. A comunicação social criou à sua volta uma lenda e desencadeou um processos que, decorridos que estão quase cem anos, ainda está por resolver. Ao tempo os médicos dos Jogos de Estocolmo recomendavam ao Comité Olímpico Internacional: “Em caso algum, uma prova desportiva como efeito atlético, não tem tanto valor que mereça pôr em risco a vida dos participantes.”

Os atletas continuam a morrer! Será que algum dia vai ser resolvido. Estamos em crer que não. Até porque no dia em que o for, certamente o desporto deixará de ser aquilo que é. Por isso, tal como tantos outros problemas na vida o doping não se resolverá com mais ou menos sistemas de controlo porque esses serão sempre ultrapassados pela própria condição humana e a sua necessidade sem limites de superação.

Bibliografia

Correia, Romeu (1988). Portugueses na V Olimpíada. Lisboa: Editorial Notícias.

Malheiros, A. (1910). A Emborcação no Treino. In: Tiro e Sport, 15 de Setembro.

Nolasco, Pedro (1985). A Morte de Francisco Lázaro. Lisboa: Direcção Geral dos Desportos, Desporto e Sociedade nº 5.

Sem autor (1912). Une Olympiade à Vol d’Oiseau. In: Revue Olympique, nº 80, Août.  

Última actualização: 05-03-2012;

 

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Story | by Dr. Radut