Logo FORUM OLIMPICO DE PORTUGAL
Desporto &
Desenvolvimento humano

Marc Hodler

A Estória de Marc Hodler

Gustavo Pires

Todos os homens têm a sua pequena estória para contar, geralmente insignificante, enigmática e pessoalíssima. Marc Hodler (1918-2006) também tinha a sua mas não era aquela que, seguramente, foi a estória mais importante da sua vida.

O suiço Marc Hodler ficou para a história do Movimento Olímpico internacional como o homem que em 1998 denunciou a corrupção relativa aos processos de candidatura à organização do Jogos Olímpicos, concretamente quanto à candidatura de Salt Lake City (2002). Ao fazê-lo, desencadeou uma das maiores crises de sempre no Comité Olímpico Internacional (COI) uma organização que ao longo da sua história passou por enormes crises e bem complicadas.

Hodler foi praticante e treinador de esqui de neve; foi Presidente da Federação Internacional de Esqui (1951-1998); foi membro vitalício do COI desde 1963 e seu Vice-presidente de 1993 a 1997. Na sua vida profissional foi advogado.

Como referiu o "The Independent" (20/10/2006) no obituário de Hodler, se existissem medalhas olímpicas para premiar a dignidade, a integridade e a coragem, então, em 1998, Marc Hodler tinha ganho a de ouro.

Descontente com o rumo que o Movimento Olímpico estava a trilhar, Hodler teve a coragem de quebrar o código de silêncio relativamente à corrupção que imperava no COI durante o mandato de Antonio Samaranch e ao afirmar para quem o quis ouvir que “de cinco a sete por cento dos membros do COI eram compráveis”, denunciou um dos maiores escândalos da história do Olimpismo moderno. E perante a comunicação social afirmou que as votações para os Jogos Olímpicos de Atlanta (1996), Sydney (2000), Nagano (1998) e Salt Lake City (2002) haviam sido corrompidas através da compra dos votos de alguns membros do COI! Mas mais, ele afirmou que existiam quatro "agentes", um deles membro do próprio COI (!), que ofereciam a vitória às cidades candidatas a troco de 5 milhões de US dólares. E isto era possível porque havia membros do COI que aceitavam presentes caros, serviços de prostitutas, empregos, cursos universitários para seus filhos e outras mordomias. A um deles foi-lhe oferecido uma turnê de concertos de piano a fim da sua filha se poder exibir.

Perante tal situação, António Samaranch agiu como de costume, desde que, a partir de finais dos anos oitenta, o jornalista Andrew Jennings começou a denunciar a corrupção que envolvia alguns membros do COI pelo que ordenou a Marc Hodler para não falar com a comunicação social. Contudo, para além de não ter acatado as ordens de Samaranch, quando os jornalistas lhe perguntaram se o tinham tentado calar, Hodler, fazendo um movimento como quem fecha a boca com um zip respondeu: "exactamente, fui amordaçado, parece que falei demais".

Em consequência, cerca de 10% dos membros do COI foram apanhados nas malhas do nepotismo, dos favores, das luvas e da corrupção em geral e afastados da instituição.

Com a sua corajosa atitude Hodler provocou certamente muitas dores de cabeça ao todo poderoso Samaranch e a muitos membros do COI, contudo, ele mudou o desgraçado rumo de mentira e corrupção que o Movimento Olímpico estava a trilhar.

Marc Hodler já tinha estado no centro de uma acesa luta com Avery Brundage devido à questão do profissionalismo no desporto. Ao tempo, o austríaco Karl Schranz tinha sido excluído dos Jogos Olímpicos de Inverno Sapporo (1972) por ter publicitado uma empresa de café. Hodler perdeu a disputa com Brundage (1887-1975), presidente do COI de 1952 a 1972, contudo, com a saída deste depois dos Jogos da Olimpíada de Munique, Hodler foi um dos principais mentores do término do tabu do profissionalismo dos atletas nos Jogos Olímpicos, o que veio a acontecer nos Jogos de Barcelona (1992) durante a presidência de Samaranch. 

Poucos homens ou mulheres da história do desporto moderno se podem orgulhar de ter estado no centro de mundanças tão radicias no Movimento Olímpico, todavia, estas não eram as estórias da sua vida que Hodler mais gostava de contar.

Marc Hodler era um extraordinário jogador de bridge. Foi por três vezes vencedor do campeonato nacional suíço. De acordo com Steven Downes do "The Independent", Hodler, na sua qualidade de jogador de bridge, teve a oportunidade de jogar com Omar Sharif. E gabava-se disso, não por ter jogado com um dos astros mais brilhantes do cinema de Hollywood", mas porque tinha jogado com um dos jogadores de bridge mais famosos de todos os tempos.

O ter jogado uma simples partida de bridge com Omar Sharif era a estória, insignificante, enigmática e pessoalíssima que Marc Hodler, o homem que virou o Movimento Olímpico do avesso, mais gostava de contar.

Última revisão: 1/5/20010